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Space Invaders : no tempo da passagem

Crítica: 'Space Invaders', por Priscila Gontijo



Apresentação do espetáculo Space Invaders, no Cine Santana, como parte do 33º Festivale Foto: Paulo Amaral/FCCR

No espetáculo Space Invaders a tragicidade que opera no limiar entre a infância e a vida adulta, colabora para ressignificar momentos de grande turbulência. Esses estados de fronteira, no umbral da existência, é a mola propulsora do espetáculo assinado por Fernanda Gama.

O adolescente é essa figura dostoievskiana do vir a ser. O adolescente nunca se completa e dá o perfil de todas as épocas. Ele é a possibilidade de todas as projeções ao redor nesse estado de limiar constante. Ele não se aplaina, não se direciona para nenhum ponto, é o estado nascente das coisas, como nos mostra o final de “O adolescente” de Dostoiévski.

No espetáculo Space Invaders apresentado no dia 05 de setembro, às 19:30h, no Cine Santana, vemos quatro irmãos vivenciando mudanças penosas em suas vidas. O enredo do espetáculo, escrito e dirigido por

Fernanda Gama, apresenta a história de Caio (Bruno Gravanic), um menino solitário e deprimido de 14 anos, que de uma hora para outra precisa lidar com a presença de Pedro (Mateus Monteiro), 17, Vanessa (Paula Bega), 14, e Luca (Leonardo Devitto), 11, filhos do marido de sua mãe, que se mudaram para sua casa enquanto a mãe deles se recupera de uma depressão severa.

A dramaturgia do espetáculo utiliza os recursos do metadrama (metateatro) – termo que se aplica às obras dramáticas que remetem para si próprias, enquanto textos de representação – para narrar uma história que vai sendo construída aos olhos do público dentro de outra que é vivida, entrelaçando o real e a ficção, onde a fantasia dialoga com a realidade objetiva.

Enquanto acompanhamos a tentativa dos irmãos para se adaptar ao novo espaço, o personagem-narrador Caio – sujeito que tem seu espaço “invadido” por estranhos – escreve uma graphic novel (romance em quadrinhos) autobiográfica, chamada Space Invaders.

Na busca por entender a si mesmo e aos invasores, Caio observa silenciosamente a trajetória dos irmãos e permanece quase invisível aos olhos deles. Caio testemunha a transformação desses “seres da passagem” em seu processo de amadurecimento. Esse estado de devir também está impregnado na construção dramatúrgica, abrindo lacunas entre sonhos, memórias e atravessamentos existenciais. As personagens lutam para se inserir em um mundo que ainda não entendem, um meio que não os acolhe, com suas exigências diárias. Sozinhos, estão em constante combate consigo mesmos, ilhados em seus medos e desejos, ansiando sempre em ser outro, “ser alguém” para ultrapassar essa angustiante fase de transição.

Com a alcunha de “esquisito”, formulada pelos irmãos invasores, Caio tenta se defender através de seu bunker de astronauta. E num movimento paradoxal, pretende se comunicar vestindo o capacete, mas só alcança palavras abafadas.

A adolescência é um dos momentos mais perturbadores da existência, e, mesmo assim, há pouco ou quase nada em teatro direcionado para esse público. Os desafios da convivência entre os irmãos revela personalidades distintas para lidar com a realidade que os convoca, criando imediata identificação com o público jovem. Nas trilhas espinhosas em se tornar adulto, tudo incomoda, tudo urge e o mundo parece exigir o impossível a cada passo. Nesse tempo da passagem, as personagens tateiam um caminho a frente, já desafiados por prazos e exigências sociais, como a de ter que decidir a profissão para um iminente vestibular. Essa angústia do vir a ser é representada na peça com humor e leveza, mas nem por isso, perde a densidade dramática que tal estado de limiar exige.

Caio inicia o relato dizendo (escrevendo) que essa história não é sobre ele, mas sobre eles. Essa fórmula é a chave de entrada ao espetáculo: uma ode à alteridade. Como escreveu Rimbaud: “eu sou um outro”.

Em sua angustiante introspecção, Caio se esforça para sair de si mesmo e se colocar no lugar do outro e, assim, consegue relevar possíveis diferenças. Às vezes, cada um se retrai em um mundo paralelo, compondo um espaço cênico que dialoga com o drama contemporâneo: partitura fragmentada, feita de ruídos sonoros e frases entrecortadas.

Pedro, Vanessa e Luca se alternam entre diálogos interrompidos por mensagens de áudios, selfies, jogos de computador e músicas de David Bowie. As observações filosóficas de Caio irrompem na cena criando lapsos de tempo, uma suspensão na narrativa. As personagens se espalham nos espaços da casa, compondo uma arquitetura de quadros, como no cinema, e relegando ao banheiro, o espaço possível da liberdade em um mundo normatizado por padrões sociais.

A revelação de uma personalidade abafada é ali exposto ao público. É nesse pequeno compartimento que Luca ensaia a coreografia para a festa de 15 anos da irmã, se pinta de batom e revela ao público suas primeiras descobertas da sexualidade. Também é no espaço reduzido de ação que Vanessa, menina apresentada inicialmente como uma princesa afetada, se transforma no esboço da mulher que se tornará um dia, ainda que esteja às vésperas de debutar. E é lá que o mais velho deles, Pedro, blindado por sua carapaça de garoto revoltado, vai mostrar sua precariedade treinando poses de bad boy no espelho.

Diferentemente dos outros, a máscara de Caio é apenas formal e está representada por sua vestimenta de astronauta. Ele não consegue ser outro, não possui essa habilidade intrínseca. É um menino poeta ancorado no espaço vazio. Desamparado, escolhe a criação, única forma possível de se comunicar em meio ao caos.

Os apartes poéticos da personagem-narrador se alternam com os diálogos inicialmente frívolos dos irmãos, criando uma polifonia de vozes onde cada ponto de vista entra em embate com outros pontos de vista em diferentes planos. A criação dramatúrgica consegue criar um espaço dialógico onde o drama não se fecha em si mesmo. É inconcluso como o são suas personagens.

A simultaneidade de ações – Vanessa no banheiro descobrindo que a foto que enviou para o ex-namorado foi compartilhada com os amigos da escola, Caio deitado no andar de cima, escrevendo, Luca observando Caio e Pedro digitando no celular – produz uma montagem dinâmica e poderosa plasticamente, evidenciando as incertezas que os invadem.

Os sons dos jogos – como o do Space Invaders – e a música de David Bowie auxiliam na inversão de uma atmosfera perturbadora ocupada de mensagens diversas para o universo adolescente e irrisório. Apenas como ressalva, cuidar do volume da voz e da dicção em teatros de grandes dimensões como o do Cine Santana.

Temas como suicídio, gravidez na adolescência, depressão, bullying e a descoberta da sexualidade estão presentes. Estão todos presos em um “dia ruim” e para sair descobrem que só possuem uns aos outros. Espetáculo necessário para os dias atuais, com atuações sensíveis, de uma jovem dramaturga que desponta na cena teatral.

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Priscila Gontijo

Pesquisadora, professora, dramaturga e escritora. É mestranda em Literatura e Crítica Literária, onde desenvolve pesquisa na área do drama moderno e contemporâneo. É licenciada em Literatura Portuguesa e Francesa e atuou como artista orientadora em teatro do Programa Vocacional.


Crítica publicada no site: http://www.ovale.com.br/_conteudo/2018/09/viver/53130-critica--space-invaders--por-priscila-gontijo.html

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